Força, Força!!
A título de exemplo, todos conhecem o majestoso "TIPO", que é, creio, apesar de por vezes criticá-lo severamente, a melhor invenção linguística em Portugal dos últimos tempos -- quem de vocês (que neste momento, devem ser 2 ou 3 leitores deste blog) nunca experenciou o magnífico alívio de ter algo para usar como introdução para frases tão sem sal e maçantes como: "Que horas são?"; ou "Mas vais mesmo nessa camineta ou tens outra mais tarde?"*; "Pede fotocópia dos dois lados, mas só a partir da página doze."?
Está comprovado, até filologica e retoricamente, que frases como: "Mas, tipo, quantos anos tens mesmo?", "Pá, tipo, acho que União Europa não é um nome muito indicado para se dar a um snack-bar.", "Tipo, acho que ao Sábado à noite não deve haver muitos autocarros p'ró Arnado" ou "Tipo, olá" (esta, então, é deliciosa) são muito mais adequadas e fluentes.
Mas além do hegemónico "TIPO" há muitas mais expressões, a saber algumas:
"P'tanto" (que é geralmente acompanhado duma prolongação da última sílaba, acabando por se desvanecenecer suavemente numa tépida e breve rouquidão-- o efeito é mais ou menos este: p'tantuuuuuuuueeeeeeeerrrghhgg" .
"então" e "logo mais" , que representam dois dos muitos vírus dos jornalistas desportivos, e não só -- "mister Scolari a dizer então que..."( para piorar, o então vem geralmente inserido numa reportagem completamente absurda -- nós ouvimos o que o homem disse, ó Helder Conduto, não precisas de repetir) ; "estão então lançados os dados (esta também é gira) para o jogo de logo mais".
São este tipo de expressões o verdadeiro bacilo da vida jornalística. (Eh pá, bela tirada. Se eu não fosse eu, diria para mim: "Pedrito, tens veia de cronista" ("Digo-te mais, tens uma veia à Vasco Pulido Valente, e tens também, por outro lado, uma artéria à Orta" -- a piada pobre e irreflectida, obrigatória, encontra-se, assim, consumada. Adiante.)
"uma espeçe dum" [que prolifera em qualquer discurso de pensionista, que gentilmente profere o "espeçe de" acompanhando-o com um gesto de mão sugestivo, ora dependurando-a e denunciando os calos e a vivência vincados nas linhas dos dedos, ou ajeitando a pala do seu boné padronizado a cinzentos, e deixando evidenciar pequenas gotículas de suor que espreitam por entre um parco molho de cãs encaracolados que caem pelas têmporas cavadas impediosamente pelo Tempo.(toma lá, ó Eça!!)]. "uma espeçe dum", juntamente com "quase q'apetece" figuram também, e bastante, em conversas de professores assistentes da cadeira de Projecto.
"hammm ", "pff, sais pas , errrrr" (idiossincrática dos franceses, que têm um dom irresístivel de produzir vento sempre que discursam)* "nat'ralmente, o FócuPorto é favorito" (celebrizada por Octávio Machado)...
e por aí fora (até Mangualde, se for preciso).
Mas acima de todas as expressões eleva-se, a meu ver, uma, que eu acho extremamente deliciosa, que é o "Força!". Hoje em dia diz-se "Força!" por 2 razões: por tudo e por nada, exactamente. É, no mínimo, uma tendência curiosa que as pessoas têm para o "Força!". Isto começou-me a parecer notório quando comecei a frequentar com mais assiduidade os cafés citadinos, onde se ouve um "Força!" pujante e seguro com relativa frequência. No topo de todas as causas criadoras destes "Força!" está, sem sombra de dúvida, a clássica situação onde um indivívuo pergunta a outro se a cadeira vazia ao seu lado está já ocupada...
"-Desculpe, posso tirar esta cadeira?!"
E qual não é a satisfação do outro quando, finalmente tem, ali, uma perfeita e mais que adequada justificação para proferir o seu "Força!" já há muito recalcado e escondido dentro de si. Eis que enche o peito de ar, anunciando uma catarse de ansiedade e de emoção, e clama, com extrema satisfação e erguendo ligeiramente a mão na direcção da cadeira em questão, "Força, FORÇA!".
Mas quão cínicos são aqueles que, talvez envergonhados por sentirem tal prazer no "Força!", disfarçam o seu entusiasmo com um "Força!" falsamente natural e despreocupado, recusando, inclusive, erguer a voz para o humilde remetente do pedido da cadeira. Pobres miseráveis. Reconhecei o vosso entusiasmo, vós que passais serões e serões nos cafés a perguntar a vós próprios "Eh pá, mas quando é que me irão pedir a cadeira, porra?! Daqui a um bocado chegam o Rui e o Zé, ocupam as cadeiras e não há "Força!" p'ra ninguém!..."
Para quem achar que isto é apenas fruto de exgero da minha parte, eu tenho dados estatísticos que comprovam esta apetência irresistível pelo "Força, Força!". Estudei exactamente 100 casos (para, obviamente, facilitar nas percentagens--eu que nunca me dei bem com regras de 3 simples--aliás sempre achei achei que uma regra chamada "de 3 simples" não deve ser grande regra).
Sim, é verdade, eu andei feito maluco a perguntar se podia levar cadeiras e recolhia a percentagem de "Força!"s que ouvia, caso a cadeira estivesse, de facto, livre. Pois bem meus amigos, 98 pessoas disseram: "Força, FORÇA!"(obviamente, com variantes e diferentes graus de esntusiasmo). As 2 pessoas restantes não disseram nada, pois uma delas era muda e a outra não falava português.
E inevitavelmente, chegamos à parte onde é preciso especular um pouco e interrogarmo-nos. Sobretudo, sobre o porquê do "Força!"....
Mas será preciso assim tanta "Força!" para levar uma cadeira? a menos que seja uma daquelas cadeiras enormes, que uma célebre personagem da minha juventude apelidava de "cadeira da presidência".
E porquê logo "Força?!"Porque não outra coisa?! Sei lá, algo dentro deste género:
"Olhe, desculpe, posso levar a cadeira?!" "Ah sim, sim claro... "Agilidade!" " , por exemplo.
Parece-me talvez que este "Força!" teria talvez algum sentido se imaginarmos o seguinte cenário:
"Oh amigo , desculpe lá, hum... Não sei se está a usar este haltere de 60 kgs. Posso levantá-lo?!"
"Ah, claro, "Força!" "

Oh! Que mundo curioso e surpreendente temos à nossa volta! Oh! quão estranhos e maravilhosos somos nós! Oh! Que Magnífico! Oh! Que júbilo estes momentos! Oh que satisfação os poder gozar! Oh, vem antes do U! Oh! Tem um som giro! Oh! É uma interjeição!!!
Um bem-haja a todos e
que a "Força!" esteja convosco!
*A propósito, sabem que nome se dá a um grupo de intelectuais frances a debater, à volta de uma mesa vermelha redonda, no Les Deux Magots, em Paris, numa tarde de sábado?
- Tufão.
